O dono da Montanha-Mônica Pimentel

carangolaQuem despertaria de um sono dominical, às seis horas de uma manhã azul?

Dez jovens em busca de um tempo nunca experimentado; um tempo vivido por nossos pais, avós; um tempo que marcara para sempre a história de Minas, seu falar, pensar, agir e lembrar.

Nos encontramos no local determinado. Alguns estavam munidos de uma alegria celestial, outros pelo ímpeto proporcionado por um vigor físico que impulsionava emoções; entre nós, “os apaixonados”, aqueles que ocupam qualquer cenário, tempo ou gestos.

Levávamos um pouco de cada coisa na bagagem: água, sanduíches, sonhos, amizade, biscoitos, máquinas fotográficas, curiosidade, paciência. Bagagem eclética, necessária, improvisada, adquirida; horas adiante , saberíamos o porque.

Quando de fato iniciamos o percurso já definido, encontramos uma grande árvore, dessas que os amigos abraçam dando-se as mãos( o que não fizemos). Pelo caminho de puro chão, árvores frutíferas enchiam nosso olhar; a mangueira, uma gentil senhora, cedera para uma de nós, seu fruto. Como é educada a mãe – natureza.

Alguns animais pitorescos, ornamentavam a paisagem e nos olhavam desconfiados. Por alguns instantes acreditamos que algo poderia acontecer; sermos perseguidos por aqueles ilustres habitantes das fazendas encontradas no caminho. Dizem que os bois e touros, não gostam da cor vermelha; muito bom saber que nossas faces já coradas por raios de sol, não reluziam o suficiente para chamar-lhes a atenção.

“Sorríamos uns para os outros e a natureza sorria para cada um de nós.”

Encontramos pequenas moradas ao longo do caminho que nos enchiam de certa curiosidade. Quem seria feliz longe da comodidade oferecida pela modernidade? A resposta nascia em nosso íntimo. Alguém que realmente sabe ser feliz.

Sobre o assunto modernidade, um detalhe não poderia ser anulado desta narrativa; em um determinado trecho de nossa caminhada, circundados por árvores e um puro-ar, fora possível ligarmos do tecnológico celular, falarmos com um amigo que estava na cidade, apenas para esboçar em ondas sonoras nosso encanto ante tanta beleza.

Estávamos no seio das montanhas de Minas, respirávamos história, nos alimentávamos de êxtase, encontrávamos tesouros, dentre os quais o mais precioso: o caminho percorrido pelo amigo – trem.

Como fora possível ao maquinista, embrenhar-se com um veículo de certa forma, artesanal, em suntuosas montanhas? Como mãos humanas fizeram um veículo locomover-se por entre paisagens tão utópicas, raras, maternas?

Ao encontrarmos um simples túnel, o transformamos em um mundo particular. Nas trilhas, admirávamos seculares pedras, paredes imensas feitas delas, ornamentadas com lágrimas de chuva ou enfeitadas de damas-bromélias ( como nos cita uma poetisa). Paredões nos quais alguns de nós escorregávamos, brincadeira de criança em corpo maduro!

O amigo – trem, outrora estivera naquele local. Suas janelas certamente se fizeram belas molduras, cuja pintura, um artista grandioso pintara : Deus!

Cansados, fascinados, risonhos, apaixonados, pensativos, seduzidos e até duvidosos a respeito de nossas forças físicas, encontramos um lugar para repousarmos; a própria natureza nos oferecera. Um abismo era encontrado sob nossos olhares, pés, um abismo que já amedrontara o amigo-trem.

Durante muitas horas caminhamos exaustos, mas, até então, o cansaço não afetara nosso minucioso olhar. Caminhamos um longo período dentro da mata fechada, mata em um quase total estado de pureza. Ao fim do percurso o cansaço nos visitou.

Alguns olhares descansavam e não perceberam que havíamos encontrado no alto da montanha, a solitária e entristecida “Estação da Ernestina”. Pobre construção-mulher, abandonada; de certo sentia saudades do apito familiar, uma saudação que talvez significasse um eu te amo.

Sim, havia um verde vivo, o canto dos pássaros, as imagens da mãe natureza, porém seu grande amor, motivo de sua existência, não mais a veria, sequer de tempos em tempos. Pobre Ernestina, quanta solidão no silêncio da montanha. Se para Minas o trem é um amigo, para aquela velha estação, o trem era um grande amor.

De tudo o que vivemos ou observamos em longas horas de caminhada, algo falou forte em meu coração: muitas vezes, pessoas nos falam nostalgicamente sobre o trem e suas viagens, falam da saudade que sentem, das paisagens que ocupavam seus olhares. Nunca havia encontrado a raiz de tamanha emoção, mas ao percorrer aquelas trilhas, pude enfim entender em uma única vez, que o trem é alma de Minas Gerais e de fato deixou saudades e uma paisagem que apenas ele poderia oferecer…

“Nessa estrada, um pé nas nuvens, outro pé noutro lugar. Uma saudade, uma viagem, onde vai meu coração?”

Flávio Venturini, Vermelho e Murilo Antunes

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