Contos de Valdir Fachini.

ValdirMARIA VAI COM AS OUTRAS

    Se a Fulana dizia que gostava do amarelo, então ela lembrava de milhões de adjetivos pra cor amarela, é uma cor viva, alegre, segundo a filosofia japonesa é a cor da fortuna, a cor que ela mais gostava;

    Se a Sicrana foi pra Bariloche, então é pra la que ela iria, mesmo detestando o frio, sem nunca ter visto neve, a coisa que ela mais gostava era esquiar.

    Estou falando da Godofreda, moça bonita, cheia de sonhos, cabelos loiros, cabeça nas nuvens, tinha lindas pernas, mas não tinha os pés no chão, tinha olhos azuis e miolo mole, nariz arrebitado e minhoca na cabeça, tinha tudo que causava inveja às outras moças da sua idade e ao seu redor, tinha um marido que dava o sangue por ela , mesmo assim não conseguia ser feliz, faltava alguma coisa.

     Um dia, uma amiga (mui amiga) disse que tinha se cansado da monótona vida a dois e tinha se separado do marido, porquê ela não fazia o mesmo? Naquela mesma noite ela comunicou ao Astrogildo a sua decisão.

    Ele quase entrou em óbito, não esperava por isso, mas conhecendo as paranoias da esposa, simplesmente aceitou, achou até que era melhor pra ele, afinal já estava de saco cheio das vontades estapafúrdias.

     Ela foi, dois dias depois voltou, a amiga tinha voltado também.

    Não muito tempo depois, outra amiga, uma lambisgoia pervertida, arrumou um amante, um garotão ainda cheirando o leite das tetas da mãe, Ela não podia ficar pra trás, descolou também um rapazote, que nem sabia fazer amor direito e ainda jogava bolinha de gude no meio da rua.

     Isso também durou pouco, porquê apareceu a Beltrana dizendo que a melhor coisa do mundo era a liberdade, que ela tinha se libertado de tudo, marido,casa, carro, conta no banco, jóias, agora sim ela tinha encontrado a felicidade.

     Não deu outra, Godofreda fez o mesmo, pediu divórcio, abriu mão de tudo de papel passado, até pensão ela não quis.

   E foi ela então em busca de ser feliz, trabalhou de doméstica.. .doméstica, ela era doméstica, sem carteira assinada, só caia em cilada….Dusek…..passou a andar de ônibus, teve que pagar aluguel em um cômodo de fundos,  sem reboque, telhado de brasilit   (um barraco) o importante era ser feliz, mas não foi.

     Ao contrário do ex, que a cada dia estava melhor, esbanjando felicidade.

      Dai,né! ela acordou pra vida e acabou descobrindo a verdade.

    A Beltrana e o Astrogildo armaram uma arapuca e ela caiu igual um patinho….vai na conversa dos outros ,,vai.

                                                              valdirfachini53@gmail.com

 AS CARPIDEIRAS

   Não se falava de outra coisa na cidade se não na morte do coronel Deoclécio, até gente da cidade vizinha veio pro velório, Conhecido feito ele só ,todo mundo queria dar o último adeus, jogar uma flor e um punhado de terra na sua derradeira morada.

    Seu irmão Deocleciano viajou mais de quinhentos quilômetros pra assistir ao funeral e aproveitou pra ver se a cunhada ainda estava enxutona….tava não,ainda depois do passamento do marido, tava de dar dó.,Enquanto as empregadas serviam café com bolo pras visitas as carpideiras choravam.

    A irmã mais nova do cadáver, a Deocleidiane se encarregava de contar as façanhas do morto (quando era vivo ) pra ela, ele era um herói, mentiroso feito o cão, mesmo assim ela o idolatrava, dizia que ele mereceu tudo de bom que ele teve enquanto vivia e com certeza la no céu, que é pra onde ele vai, irá encontrar o paraíso que ele tem direito e a contratação das carpideiras foi uma homenagem pra la de merecida e as carpideiras choravam.

   O prefeito e sua comitiva não podiam faltar, cumprimentou todo mundo, pegou criança melequenta no colo, rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria, tentou cantar o Hino Nacional mas se atrapalhou mais que a Vanusa e disse que foi a emoção, depois pediu votos pra próxima eleição que já era no ano vindouro.

     O médico da família se desculpava dizendo que cansava de falar pro velado trabalhar menos e se cuidar mais, comer na hora certa, tomar menos conhaque, mas ele era teimoso igual uma mula, deu no que deu.

  A viúva chorava, soluçava, lamentava e ficava pensando que precisava agradecer a quem tinha contratado as carpideiras, saber quanto elas cobraram pra depois reembolsar …e as carpideiras choravam.

     Rex, Maradona e Tarzan, os rottweilers do morto não puderam entrar na casa, por isso ficaram no quintal uivando, ninguém falou nada pra eles mas eles sabiam que algo de ruim tinha acontecido.

    Então chegou a hora de ir pro campo santo, a procissão era enorme, da casa até lá a distância era grande, a caminhada era longa,mas ninguém se cansava, os homens revesavam pra levar o caixão, seis alças que iam passando de mão em mão, as mulheres cantando A-VE-A-VE-A-VE AVE MARIA,A-VE-A-VE -A-VE AVE MARIA e no meio delas, as carpideiras chorando.

   Depois de um longo discurso o padre encomendou a alma do defunto e os coveiros desceram a esquife pra sua última morada.

   Então as pessoas foram se despedindo dizendo palavras de conforto e consolo e indo cada um pra sua casa.

    Ficando a viúva sozinha com as choronas, não resistiu e perguntou qual foi a alma bondosa que tinha contratado elas ,então uma das quatro falou …nós não somos carpideiras, nós éramos manteúdas do falecido.

                                          valdirfachini53@gmail.com

 O SAFADO E A ROLHA DE POÇO

  Safado!era assim que ela se referia a ele quando queria lhe colocar os grilhões,quando fazia comentário com amigos e parentes que envolvesse a sua pessoa ,ou simplesmente quando queria te xingar e humilhar.,Na casa ,a prole e até o papagaio chamava ele assim e aqueles parentes (da parte dela ,é claro)que se achavam os donos da verdade também tiravam uma casquinha.

     Rolha de poço!era assim que ele chamava ela ,mas só em pensamento e ainda assim pensava bem baixinho .

    Tudo começou quando Epaminondas ,que era um homem de Deus,católico mas não muito frequente ,executivo de uma firma grande com um salário bem grande também ofereceu carona pra sua secretária numa tarde muito chuvosa .A danada era muito bonita com um belo par de coxas ,seu Nonô até que deu uma olhadinha ,mas ficou na sua.

    Mas teve um espírito de porco que achou por bem contar pra dona Laudicéia Cristina (dona Cris ,também católica mais frequente que o marido,porém o diabo habitava aquele corpo balofo que com o tempo embalofou mais.

      Ela passou a mão na cabeça e gritou ….é isso que eu mereço seu traste ,chifre?

    Desse dia em diante sua mansão passou a ser a casa dos fundos junto com os ratos ,só entrava na casona pra fazer algum serviço que os pamonhas dos filhos não sabiam fazer.

     Chegou janeiro ,férias calor,a galera toda foi pro nordeste ,menos seu Nonô e o papagaio.Lagosta, água de coco,camarão,brisa gostosa,massa adiposa bronzeando,mas na hora de pagar a conta …danou-se,o cartão estava bloqueado.Ficaram os relógios e jóias pra pagar a conta,a filha mais nova teve até que dar um beijinho no gerente pra ter um desconto e voltaram pra casa no meio das férias.

    Na garagem da casona tinha uma caminhonetona da hora OKM as portas da casa nem adiantava tentar abrir,seu Nonô trocou todas as fechaduras ,mas a casa dos fundos estava a inteira disposição,seu Nonô só pediu pra não machucar os ratos pois ele tinha pego amor nos bichinhos.

   Mas agora está tudo bem,eles estão felizes na edícula,dona Cris os parasitas e o papagaio.

    Na casona,de caminhonete mais nova ainda também está muito feliz o Pepezinho (apelido que ele ganhou da namoradinha trinta anos mais nova que ele arranjou) mas isso eu não posso afirmar ,me contaram.

                                                  valdirfachini53@gmail.com

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